Na reta final do Concurso LYCRA® Future Designers, o grupo baiano Sertanília (sertanilia.com.br) foi o eleito do nosso dream team de novos artistas da música brasileira para tocar na final, que acontece em 25 de outubro em SP.
A vitória caiu como uma luva num concurso de jovens estilistas. Com pouco mais de um ano de existência e cheios de frescor, eles têm um trabalho que busca resgatar e compartilhar um pouco das raízes brasileiras, principalmente com elementos que vem da cultura sertaneja.
“Gostaríamos de compartilhar com todos a ideia da busca e redescoberta de um Brasil esquecido e desconhecido”, dizem. “Não falamos apenas do sertão. O Brasil é muito grande e tem muito ainda pra mostrar da sua cultura que está longe dos grandes meios de comunicação e que é tão rica e forte quanto a de qualquer outro lugar do mundo”.

Com pouquíssimo tempo de estrada e uma longa jornada que têm pela frente (assim como você, participante do concurso), o show da final tem um quê de especial para eles: será sua primeira apresentação em SP. Com você, Sertanília.
O show na final do concurso é o primeiro de vocês em São Paulo, é isso? Tão preparando o que para essa apresentação?
Sim, será nossa primeira apresentação em São Paulo e estamos muito ansiosos porque sabemos que isso pode dar início a uma nova fase do grupo. São Paulo, hoje, é o pólo onde a música alternativa ganha visibilidade. Pra esse show decidimos apresentar algumas músicas que estarão no disco que estamos gravando, até mesmo pra gente perceber como elas funcionam ao vivo e como esse público, que é novo pra nós, irá recebê-las.
Vocês são uma banda de Salvador, que faz um som que traz muitos elementos da cultura e da música do sertão, uma região que em geral é recebe pouca atenção na cultura nacional. Como foi essa “descoberta” ou esse contato de vocês com essa região da Bahia?
Parte do grupo tem origem no sertão e apesar de todos morarem em Salvador, procuramos manter um contato bem estreito, inclusive por conta das pesquisas que definem o nosso som. No momento, por exemplo, Anderson Cunha trabalha num documentário sobre registro da cultura de uma comunidade deslocada de sua terra por conta de extração de minério. Esse contato, independente da situação, é de extrema importância por descobrirmos em algum momento elementos que possamos agregar ao nosso trabalho.
Vocês têm cidades favoritas nessa região? Que elementos da cultura local vocês destacariam como “imperdíveis” para se conhecer mais desse sertão? Pode ser uma comida, uma festa típica, uma dança, um artista, uma cidade, o que vocês curtirem...
Falando da Bahia especificamente, temos a maior parte do estado que compreende o semi-árido e o sertão e, que nas últimas décadas, teve sua cultura relegada a segundo plano pelas estratégias dos segmentos de turismo e cultura do governo, o que fez com que muitas manifestações populares do interior fossem esquecidas pela grande mídia. Não falamos aqui do forró ou da tradição junina. Falamos de manifestações com séculos de história, herdadas dos povos indígena, negro e ibérico que são as matrizes de raças que formam o povo sertanejo. Dos elementos que podemos destacar, e que tem a ver com nosso conceito, temos a romaria da cidade de Bom Jesus da Lapa que acontece em agosto e leva milhares de romeiros anualmente para pagarem suas promessas, a cidade de Canudos e seus arredores onde ocorreu o massacre (e não a guerra) em que foram dizimados pelo exército brasileiro milhares de sertanejos, o reisado da região sudoeste das cidades de Vitória da Conquista e Caetité, onde ainda se mantém viva a tradição dos ternos de reis. É uma região muito grande e muito rica culturamente e que precisa ser redescoberta pelo Brasil. É parte disso que tentamos fazer e mostrar, numa linguagem contemporânea.
O tipo de trabalho que vocês vêm fazendo tem um desdobramento em termos de imagem/ figurino/ moda no grupo?
Somos um grupo independente e temos as mesmas dificuldades de toda banda independente, desde som, transporte e, inclusive, figurino, tudo por conta de falta de dinheiro. O que existe no Sertanília é uma preocupação com nossa identidade visual, que dentro das possibilidades, tentamos fazer com que seja o mais profissional possível. Desde o início, ainda que falemos de sertão, procuramos não vincular nosso visual aos elementos que foram popularizados como "sertanejo", "caipira" e que sempre foram muito associados ao forró. Optamos por seguir um caminho que tem mais a ver com o universo fictício das músicas de Elomar Figueira, que retrata um sertão com reis, castelos, cavaleiros e princesas. Essa influência portuguesa, espanhola e moura, que também está presente no movimento armorial da década de 70, foi nossa principal fonte de inspiração para desenvolvermos um visual.
Que outras bandas ou artistas vocês admiram ou servem de inspiração para vocês?
Conceitualmente Elomar é nossa maior influência. Dele veio nosso nome (do romance "Sertanílias") e sua forma de pensar o sertão e seu povo, ainda que musicalmente não exista uma ligação direta, pois usamos muita percussão e soamos ao vivo muito pesado, completamente diferente de Elomar que se apresenta quase sempre com seu violão. Nossa música é influenciada por muitos artistas que pretendem, como nós, buscar no passado uma música essencialmente brasileira e trazê-la para o presente soando moderno, como Antônio Nóbrega, Xangai, Cordel do Fogo Encantado e Mestre Ambrósio entre outros.
O disco de estréia de vocês ficou pronto? Podem contar um pouco de como foi o processo de fazê-lo?
Tudo no Sertanília aconteceu muito rápido. Acabamos de fazer um ano de grupo e fomos à Europa duas vezes. Foi um reconhecimento rápido e que nós não esperávamos. Como no começo tínhamos pouco material autoral, as composições foram aparecendo no decorrer da estrada. E assim foi surgindo esse disco que estamos gravando. Ele acabou sendo um retrato dessa trajetória. As músicas são em sua maioria inspiradas nas cantigas, sambadas, reisados do sertão baiano e nordestino. Em outras, reproduzimos fielmente as melodias e letras com mais de 100, 200 anos de tradição. Não buscamos uma releitura ou mistura com ritmos modernos. No máximo fazemos uma adaptação para o formato de canções de 3 a 4 minutos.
Sai quando o disco?
Estamos fazendo esse disco pelo edital da Conexão VIVO com o incentivo fiscal do governo do estado da Bahia. Esse ano houve algumas mudanças na Secretaria de Cultura o que atrasou um pouco nossos planos. Então o disco deve sair em janeiro. Essa é nossa previsão.

